A chegada
As empresas se apressaram a inscrever seus melhores executivos. Todas
elas não quiseram ficar para trás. Cada qual apostava em levar o maior
número possível de quadros superiores. A palavra do guru estava a ser
tão esperada quanto a de Cristo em sua digressão pela Galileia.
Os executivos que haviam merecido ser inscritos no seminário não
deixavam de sentir-se ansiosos e exultantes. Não era qualquer um que ia
ouvir as sábias palavras do mestre. Ele era um académico premiado,
escrevera mais de 15 livros sobre liderança, inventara novos conceitos,
ideias-força, modelos de pensamento, eu sei lá que mais. O guru era
mesmo um guru, isto é, funcionava como um guru.
Falava do alto de sua sabedoria e alguma arrogância. Esse pequeno
pecado assentava-lhe bem. Não era um sujeitinho qualquer. Era um
pensador. Um filósofo da administração. Lá longe, do gabinete da sua
universidade, ele observava o mundo dos negócios e refletia. E dessa
reflexão nasciam páginas e páginas de sabedoria. Suas teorias agitavam
as mentes. Ele era o máximo.
O evento
Chegou o dia aprazado para o seminário. Seria um acontecimento
inolvidável. Cada um dos presentes - uns privilegiados - poderia,
finalmente, registar em seu Curriculum Vitae a sua participação atenta
em tal evento.
E o espetáculo começou. Uma apresentação rápida feita pelos promotores
preparou o ambiente. O tic-tac do coração dos presentes acelerou. O
guru ia entrar em cena!
E eis o nosso homem. As luzes incidiam sobre seu rosto. Ele brilhava
como um ator em plena exibição. A lição começou. Mudos, silenciosos, os
executivos ficaram a ouvir. As palavras do guru pareciam música para os
seus ouvidos, àvidos de novos saberes.
O homem falou, falou, falou. Exibiu imagens, estatísticas e muitos
outros documentos para ilustrar a sua intervenção. Do silêncio inicial
passou-se para um leve sussurro. Todos se apressavam a escrever e a
fazer anotações. Era preciso apanhar tudo o que as suas sábias palavras
queriam dizer.
Ao fim do dia o guru acabou sua apresentação. Respondeu a algumas
questões mas não se alongou. O trabalho principal estava feito.
Cumprira seu dever. Esperava-o apenas um chorudo cheque em dólares.
Os participantes partiram, em pequenos grupos, conversando
entusiasticamente sobre algumas das matérias que o guru havia abordado.
Depois cada um seguiu seu destino, talvez para casa.
A aprendizagem
No dia seguinte, numa das empresas que apostara no evento,
os executivos foram chegando de regresso aos seus gabinetes. O tema das
primeiras conversas com os colegas era, naturalmente, o guru e a sua
sabedoria.
Os que não tinham ido ao seminário queriam saber novidades. Então, que
disse ele? Que aprenderem vocês de novo? Valeu a pena? Eram as
perguntas mais imediatas.
Os mais rendidos às palavras do guru foram os primeiros a disparar
respostas. Ainda recordavam algumas ideias-força. Seu ego estava ainda
empolgado. Agora era a vez deles brilharem ante seus colegas.
Falaram, falaram, falaram. Tanta ciência debitada no bar da empresa,
nos corredores e nos gabinetes. O guru deixara sementes em cada um
deles.
Numa delas, um sujeitinho que não valia nada (nem tão pouco tivera
direito a ir ao inesquecível seminário), depois de ouvir,
tranquilamente, um colega a expor suas novas aprendizagens por longos
minutos dispara:
- Foi isso o que você aprendeu? Tudo isso? Me deixe então dizer uma coisa.
E eis que o sujeito, que até aí se mantivera discreto, um quadro médio
da empresa, começou a falar e a discorrer sobre tudo o que aprendera
lendo nos livros do guru que ele comprava sistematicamente. De repente,
a assistência concentrou sua atenção no homenzinho. Impressionante! O
que ele sabia!
Seu colega, que estivera no seminário, se calou. Não tinha aprendido
nem metade do que o sujeitinho sabia. Mais: ele brilhava com sua
capacidade de discursar. Durante uns 20 minutos empolgou a assistência.
Ele era muito melhor do que o guru pois tinha feito uma leitura crítica
da obra e acrescentou sua versão dos conhecimentos. E que bem ele sabia
expor!
O aprendiz
Dois dias depois, o presidente da empresa mandou-o chamar. Pediu que se sentasse. Não se conheciam, obviamente.
- Como se chama você? Me disseram que o senhor é um grande conhecedor da obra do guru que esteve em nossa cidade. Como fez isso? - indagou, curioso, o chefão.
- Me
chamo Francisco. Eu aprendi lendo os livros do guru mas também lendo
criticamente. Bebi algumas das ideias dele mas criei minhas próprias
teorias. Não creio que o guru seja assim tão fenomenal. Muitas das suas
ideias são vulgaridades ditas de outra forma - garantiu nosso homem.
O presidente se levantou. Por uns momentos manteve-se calado. Depois atirou:
- Senhor
Francisco. Peço-lhe que me apresente um programa para um seminário que
será o senhor a dirigir, expondo suas próprias ideias mas adaptadas à
realidade da nossa empresa e nossas necessidades.
Francisco ficou silencioso. Um nervoso miudinho atravessou-lhe o corpo.
De repente, sentiu-se na pele de um guru. Ele, que aprendera lendo
avidamente as obras dos gurus, estava agora a ser convidado para
dirigir um seminário.
Quase a sair do gabinete do presidente, este o chamou de novo.
- Senhor Francisco: me diga, quanto gasta o senhor em livros de gestão e liderança por ano?
- É fácil. Todos os meus amigos sabem que eu gosto de ler e as minhas preferências. Então, no meu aniversário, costumo
receber livros sobre essas matérias e dos autores que eu sei serem os
melhores. E do meu salário eu retiro uma percentagem para também
comprar livros. Adoro aprender coisas novas - explicou o Francisco.
Dois anos depois, Francisco era já uma autoridade na matéria. Já
escrevera dois livros bem sucedidos, abandonara a empresa onde
trabalhava e era agora um palestrante muito requisitado. Aos poucos foi
se tornando num guru. Vendia livros e depois falava sobre eles. Passou
a ganhar 20 vezes mais. Sua cotação subira em flecha no mercado.
Sentado em seu gabinete, o presidente fez as contas. Mandara 5
executivos ao seminário do guru havia 2 anos. Gastara uns milhares de
dólares. Nada trouxeram de novo ou não souberam aplicar. Sua empresa
não beneficiara absolutamente nada desse investimento. E perdera um
excelente empregado que agora ascendia, gradualmente, à condição de um
novo guru.
Lição
Esta história, com base em fatos reais que presenciei, dá que pensar. Convido-o a retirar você mesmo a lição do que se passou. Nelson Lima
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